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Ainda não temos governo mas já temos Presidente

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 13.10.15

É impressão minha ou este Outono está a revelar-se mais suave e alegre? Como se um peso nos tivesse sido tirado dos ombros... e só pelo facto de estarmos, bem... sem governo. 

Agradeço, pois, a todos os Indecisos que foram votar terem hesitado até ao último momento e terem mantido o suspense até ao fim. Assim, comparando com as sondagens na semana anterior às eleições, podemos concluir que a distribuição dos seus votos foi deveras interessante: bastantes votos para o BE, alguns para o PS, uns poucos para a CDU, e ainda se lembraram do PAN, o único dos novos partidos a merecer a sua atenção.


Apesar da dupla CDS/PP, da comunicação social e dos comentadores agitarem os fantasmas do passado, para assustar os cidadãos quanto à possibilidade de formação de um governo de esquerda, os ditos cidadãos não parecem preocupados. A vida continua docemente e em paz.

Afinal, podemos não ter governo mas já temos Presidente.


Alguém que finalmente apresenta a sua candidatura fora do centro político e das luzes da ribalta, junto dos cidadãos.

Alguém que define a sua futura forma de representar o seu país e os seus concidadãos, perto das pessoas e com as pessoas. Sim, finalmente alguém que gosta de pessoas.

Assim, se o governo que sair das negociações em curso se vir entalado ou pressionado, já temos alguém que pode construir pontes e manter a harmonia e equilíbrio há tanto desejados.


Entretanto vou saboreando estes dias de intervalo sem a dupla PSD/CDS no poder. Esta súbita paz, esta calma outonal... 

Afinal há uma década já que somos massacrados com personagens rígidas e arrogantes. Não seria bom que agora surgissem pessoas a sério?


Para celebrar este Outono e este intervalo, um filme muito arrumadinho dos anos 50:

 

 

 

Post publicado n' A Vida na Terra.

 

 

publicado às 20:26

Construir a esperança

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 25.02.14

Por mais sombrio que o presente e o futuro nos pareça, ver a realidade nua e crua é o primeiro passo para construir a esperança. É que não se pode construir a esperança sobre ilusões.

 

A esperança implica vitalidade, acção, movimento, mudança. Podemos visualizar um determinado cenário que queremos concretizar, mas se não iniciarmos um qualquer percurso que nos aproxime desse cenário, a esperança enfraquece.

 

A esperança é mais dinâmica quando lembrada, alimentada, partilhada. É como um exercício diário, um teste à nossa paciência. Por isso, a esperança respira melhor na interacção social

 

A esperança que podemos construir depende de um debate sério na sociedade civil, uma vez que da lógica partidária pouco podemos esperar a não ser a feira das ilusões. Alguns conseguem desmontar algumas dessas ilusões, mas já não conseguem sair da cultura do seu grupo de referência. A esperança depende de uma informação de qualidade, fidedigna, científica digamos assim, e incluo aqui as ciências sociais. 

 

Para os cidadãos e as suas vidas, este período de tempo limitado ANTES das eleições europeias é uma oportunidade única para um debate sério sobre o país que queremos a partir daqui. Não é a partir da saída da troika, pois a troika vai manter-se cá através do governo-troika, é a partir das eleições europeias.

 

 

As consequências do ajustamento são hoje fáceis de avaliar: austeridade para pobres, prosperidade para ricos. Afinal o que é que foi ajustado? Isso mesmo. Trabalho, pensões, acesso/qualidade do serviço público e prestações sociais. Quanto aos próprios políticos, incluindo os partidos, o parlamento, a administração pública central e local, não foram ajustados. E os grandes grupos económicos e a finança, também não.

As lideranças políticas que repetem agora até à exaustão que têm a legitimidade dos votos, distanciaram-se tanto do país e dos cidadãos que já não os representam, nem o país nem os cidadãos. Além disso, qualquer contrato que tenham feito com os eleitores já foi ignorado e traído vezes sem conta.

Mas os cidadãos ainda foram duplamente humilhados: quando se depararam nas televisões com o auto-elogio governamental e quando os tentaram iludir sobre a solidariedade europeia do empréstimo, os benefícios do ajustamento, e ainda quando lhes acenaram com a taxa de natalidade.

Triplamente humilhados se pensarmos na propaganda eleitoral europeia: act, react, impact. Reparem que apesar da devastação social e económica que a austeridade deixa atrás de si, insistem na mesma lógica. E o BCE ainda tem lucros com os empréstimos da solidariedade europeia... A propaganda eleitoral europeia é pueril e até perversa, e corresponde a uma ilusão. Desta vez é diferente, é o que o agressor doméstico compulsivo diz ao agredido: prometo que nunca mais te bato. Além de se ter distanciado dos cidadãos, a Europa das estrelinhas não deu o exemplo da fórmula de rigor que aplica aos países membros em apuros, é uma máquina pesada e mesmo extravaganteEsta Europa que se desviou do projecto inicial já não representa os cidadãos europeus. A esperança só pode estar numa Europa dos cidadãos. 

 

 

 

Temos, pois, de desmontar as ilusões que nos vendem uma a uma nas televisões:

 

1 - Não há saída da troika: a única diferença é que em vez das visitas periódicas, teremos uma monitorização à distância que ainda pode ser bem pior. O governo-troika irá continuar a razia dos cortes no trabalho, pensões, prestação de serviço público, prestações sociais, a que chamará ajustamento e rigor. De fora continuarão aqueles que não foram beliscados com a austeridade e, pasme-se, que até prosperaram com a desgraça dos seus conterrâneos.

 

2 - A esperança de uma vida com dignidade e qualidade não é possível com este governo e esta UE: a única oportunidade de construir alguma esperança para os cidadãos e as suas vidas é AGORA, como tenho insistido, ANTES das eleições europeias. Depois cai-nos em cima a lógica da austeridade e do ajustamento, que significa trabalho mal pago, trabalho precário, trabalho à hora, ia dizer à jorna, como em tempos idos. Os mais velhos continuarão a ver as suas reformas reduzidas, a ter dificuldade em comprar medicamentos e em manter condições básicas de dignidade. A emigração continuará a ser a única saída para jovens e menos jovens, qualificados e menos qualificados.

 

3 - A nossa recuperação económica só se pode concretizar e estabilizar com uma mudança da lógica europeia: não será com a união bancária, fiscal e política, como nos prometem, será precisamente com a flexibilidade de acordos económicos, flexibilidade fiscal e relativa autonomia política. A lógica inversa, precisamente. Quem julga que muda alguma coisa com a reciclagem da troika, isto é, o FME em vez do FMI, pense duas vezes. A cultura de base desta Europa desvirtuada e distante dos cidadãos mudou? A lógica que preside actualmente nesta Europa, em que os países mais fortes decidem sobre o destino dos mais fracos, que falhou na prevenção da crise financeira, que falhou na supervisão bancária, que falhou no controle das fugas fiscais, que falhou na intervenção aos países membros em dificuldades, acham mesmo que mudou? Que desta vez vai ser diferente?

 

 

Aqui ficam alguns vídeos a que juntarei outros vídeos que vou descobrindo no Youtube, neste período fundamental até às próximas eleições europeias:

 

 

 

 

 ...

 

 

A esperança também se constrói pela percepção de alguma capacidade de intervenção (empowerment) e de prevenção de situações que colocam em risco a vida e o futuro. Ora, neste momento, as pessoas sentem-se precisamente despojadas de todos os mecanismos de intervenção e de prevenção, sem qualquer poder sobre as suas próprias vidas e o seu futuro, sem vislumbrar sequer uma garantia de que a sua vida não vai piorar. 

 

Os princípios e valores (dimensão cultural) que lhes tinham sido vendidos pela democracia nacional e pela Europa moderna, foram sendo traídos, ignorados e até desprezados, perante os seus olhos incrédulos. Assistiu-se nas televisões à revolta dos gregos na praça Sintagma, e em vez da empatia com o seu desespero e impotência, divulgou-se na comunicação social o lado dos erros da gestão pública, o lado dos credores, o lado do poder. E no entanto, todos sabem que os gregos ricos escapam aos impostos. Quem foi ajustado violentamente? As populações indefesas. Esta é a realidade. Também vimos os nuestros hermanos nas ruas de Madrid, também sentimos o seu desespero, mas quem foi resgatado foram os bancos. Já viram alguém ser responsabilizado pela ausência de supervisão bancaria? Ou por se permitir a grande fuga e fraude fiscal no coração da Europa?

 

Há muitas formas de violência, física e psicológica. A austeridade aplicada às pessoas, às suas vidas, é uma forma de violência, física e psicológica. Se as pessoas tivessem observado uma qualquer racionalidade, equidade e legitimidade nas iniciativas que as foram despojando de qualidade de vida e de autonomia, a esperança ainda teria sido possível. Mas as pessoas perceberam que tinham sido enganadas, havia uma minoria que escapara à garra violenta da austeridade e que até prosperara com a desgraça da maioria. Também perceberam que, além desta desigualdade e injustiça, os objectivos da austeridade não eram a redução da dívida, do défice, e o ajustamento do estado na parte que deveria ser ajustada (reforma do estado), mas sim o ajustamento das vidas da maioria, o seu empobrecimento e a desvalorização progressiva do trabalho. Ora, isto é inadmissível numa democracia de qualidade.

 

Quando agora emergem à superfície os casos de violência doméstica, violência nas escolas, violência nas universidades, a avaliação deve ser feita em termos abrangentes e numa perspectiva cultural. Esta violência não é apenas potenciada pela austeridade, a violência é a sua própria marca, faz parte da sua cultura.

 

A prevenção de situações como as que actualmente nos condicionam e oprimem, só pode ser obtida com a avaliação dos resultados da intervenção das instâncias internacionais e europeias, e dos governos nacionais. Sem esta responsabilização a esperança no futuro fica comprometida. Estamos entalados na Europa das estrelinhas e se a sua cultura não mudar, se os princípios e valores que a fundaram não forem reabilitados, situações como a que actualmente vivemos voltarão a ocorrer e tenderão a piorar.

 

Mas não se trata apenas de avaliar os resultados da intervenção dos gestores políticos e financeiros, trata-se de prevenir de forma mais profunda, os riscos de violência futura: se propomos uma selecção profissional cuidadosa para qualquer actividade com alguma responsabilidade, mais cuidado se exige a um perfil profissional cuja intervenção irá afectar milhares e milhões de pessoas. E este cuidado não se deve ficar apenas pelas dimensões profissionais, mas também pela sua personalidade. Esta ausência de empatia que vemos generalizar-se nas lideranças políticas e financeiras e a sua colagem ao poder que é identificado com o sucesso, devia alertar-nos como comunidade, porque é um sinal de alarme. 

 

 

 ...

  

Como referi logo no início, para construir a esperança é necessário perceber a realidade em que vivemos e o seu contexto, numa perspectiva o mais objectiva possível, e por isso convoquei as ciências sociais. A psicologia e a psicologia social, a sociologia, e mesmo as neurociências, podem ajudar-nos a compreeender a lógica deste ajustamento social da austeridade, e como foi possível efectuá-lo de forma drástica e violenta, e como, tendo-se verificado ser contraproducente, portanto, ineficaz e até prejudicial, continua activo como um plano sem qualquer avaliação e responsabilização das lideranças que o promoveram e aplicaram.

 

A parte mais perversa da lógica da austeridade é: 

 

- a sua apresentação como benéfica, um remédio, quando na verdade, é um veneno que mata, por mais contrariadas que as lideranças que a defendem fiquem com esta frase. Além de matar fisicamente, a austeridade mata psicologicamente. Quando se instala o medo, a insegurança, a instabilidade, o desalento, a apatia, a esperança enfraquece e pode mesmo desaparecer.

 

- a austeridade foi-nos apresentada por lideranças que se apresentaram como o nosso médico, e os credores como benfeitores, a generosidade europeiaé um favor que nos fazem, pois a sua aplicação leva-as a fazer o sacrifício político de a aplicar, o que muito lhes custa...

 

- e agora um suspense... depois de muito trabalho e determinação da sua parte, a nossa situação mudou, mudou-se a página, a parte pior já passou, para poderem dizer que... valeu a pena.

 

- o que nos leva à parte mais perversa da austeridade: para a poderem defender, as lideranças têm de negar a realidade e o seu contexto, e apresentar, em sua substituição, a sua versão da realidade onde a austeridade se adapta. Têm, igualmente, de mentir sobre o futuro, pois a lógica da austeridade, não sendo viável não tem fim, é para permanecer como nova normalidade para a vida das populações, isto é, para a vida concreta das pessoas é sempre a descer mesmo que os gráficos estejam a subir.

 

 

A esperança é uma fonte de vitalidade e de acção virada para o futuro. É incompatível com um ambiente de falta de confiança na orientação que é proposta a uma comunidade, de ausência de expectativas fiáveis e de instabilidade constante. Esta instabilidade é provocada pelas lideranças que alteram as regras do jogo a toda a hora, para adaptarem a realidade à austeridade que, como vimos, não tem fim. O desespero levará à revolta, o que agravará a instabilidade.

 

Esta Europa das estrelinhas tinha instrumentos para resolver as diversas situações em que alguns países-membros se encontraram, mas escolheu aproveitar a oportunidade para fazer o ajustamento social com que provavelmente as suas lideranças sonhavam há muito:

- acabar com o serviço público de qualidade que consideravam um luxo muito caro;

- empurrar a classe média para baixo, pois é fonte de dores de cabeça quando reclama democracia;

- promover a aplicação e banalização da violência sobre populações inteiras e insistir nesse caminho.

 

 

Desta vez escolhi 3 vídeos relativos à América mas que respondem às mesmas grandes questões e grandes desafios que enfrentamos como país entalado na Europa das estrelinhas:

 

 

 
 
 

 

 

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E pronto, penso que já referi o essencial sobre a nossa situação actual. Para finalizar como nos filmes, deixo aqui a lista dos principais representantes da marca Austeridade para pobres, prosperidade para ricos, primeiro o grupo internacional e depois o grupo nacional (preparei aqui algumas surpresas).

 

Grupo internacional da marca: Christine Lagarde; Durão Barroso; Olli Rehn; BCE; Eurogroup. 

 
Grupo nacional da marca: Os que melhor a representaram foram Vitor Gaspar e Passos Coelho, secundados por Maria Luís Albuquerque e Paulo Portas.
Mas não podemos esquecer que esta marca já tinha sido iniciada pelo anterior PM e os seus ministros das Finanças e da Economia: Teixeira dos Santos e Manuel Pinho, que não tiveram oportunidade de a implementar.
O privilégio de a implementar com toda a sua violência (para quem gosta de bater no mais fraco) acabou por ser dado ao par PSD-CDS.
 
Quem tiver a paciência de acompanhar os posts que aqui deixei, vai poder refrescar a memória ANTES de votar nas próximas eleições europeias.
Pense bem: quer continuar a levar pancada ou quer libertar-se desta praxe violenta sobre os portugueses?
É que se a Europa descobriu que as mulheres são um alvo fácil - violência doméstica e no trabalho -, os portugueses pobres,  os remediados e os que eram da classe média foram um alvo apetecível para esta marca violenta "Austeridade para pobres, prosperidade para ricos": 9 em cada 10 portugueses já levou pancada deste governo (impostos, cortes vários em salários e pensões sob falsos pretextos, desemprego, emigração, etc.) tendo parte destes portugueses, porque são sempre os mais frágeis, já levado umas traulitadas do anterior governo (impostos, desemprego, emigração, cortes de subsídios como o abono de família e os de portadores de deficiência; perseguição da ASAE aos feirantes, etc.).
 
 
Portanto, a marca já vinha de trás, é uma cultura praxista que já estava a emergir. Por vezes, visualizo a alegria pueril de Manuel Pinho e o seu sonho acalentado e finalmente concretizado, dos salários baixos... Ah, como era bom governar a desorçamentar e a fazer negócios futuristas apresentados em powerpoint... não ter de interagir com o povo que só serve para trabalhar, pagar impostos e votar de 4 em 4 anos...
Francisco Assis terá de se esforçar muitíssimo se quer vender a sua Europa ao centro e ao centro direita que tem princípios e valores democráticos, pois a marca do anterior governo PS não era amiga da democracia, distanciou-se dos cidadãos, acentuou as desigualdades sociais, iniciou a desertificação do interior do país, ignorou a supervisão bancária, escolheu proteger os bancos e os grandes grupos económicos, etc. e foi igualmente um bom aluno de Bruxelas.
 
A cultura narcisista foi-se implantando em Portugal: tudo pela imagem, nada pela vida concreta das pessoas. Desde que fique bem nos gráficos e nas estatísticas, o resto não interessa.
 
 
 
 
 
 
 

publicado às 23:07

Idolatram-se objectos, ignoram-se pessoas

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 04.02.14

Desde 5ª feira passada, que tenho recolhido e registado episódios significativos e reveladores da nossa situação precária devido à arrogância dos gestores políticos, a cortes desnecessários e ilegítimos por razões eleitorais, ao aventureirismo arriscado que penalizará duplamente as pessoas sacrificadas. Uma saída à irlandesa? Alguém perguntou aos cidadãos o que pensam sobre isso? Retirar-lhes o essencial para arriscar na recuperação económica, que todos já sabemos ser uma mentira? Por incrível que pareça, governo e PS estão juntos neste desvario. Apenas o Presidente, Freitas do Amaral, Manuela Ferreira Leite e Medina Carreira consideram isto um desastre.

 

Mas os episódios não se ficam por aqui. Hoje ocorreu uma cena à 007 do episódio da série PS cultural "salvar os quadros de Miró". Se o PS julga que vai cativar o eleitorado dando protagonismo ou tempo de antena às personagens pueris que antecederam este governo, está muito enganado. Afinal, é o mesmo PS pueril de há 3 anos que aqui nos surge na televisão, com ar solene e pesaroso, como se tivesse acabado de salvar a vida dos portugueses. E o que entendem estas personagens cultas sobre cultura? O turismo cultural, o turismo de museu. Nisso, até não são muito diferentes das personagens actualmente no governo, para quem cultura é dinheiro. Mas para os contribuintes que estão a pagar o buraco do BPN, a venda dos quadros surge como uma operação lógica e legítima, muito mais lógica e legítima do que financiar fundações e alimentar assessores a mais e deputados a mais.

 

Mas eis que o PS cultural não está sozinho nesta defesa dos quadros de Miró! A esquerda está em peso neste episódio. Para a esquerda, os quadros - objectos com um valor mercantil no mercado da arte -, são uma prioridade. São a cultura do país num país também idealizado como o do turismo de museu. Cultura para eles é tão-somente a dos museus e das exposições, a dos objectos e dos postais, bonés, t-shirts. É assim também que vêem o país pós-troika, o do turismo cultural, tal como a Grécia e a Itália. 

 

Cultura é muito mais do que a dos museus, das exposições, das bibliotecas, das ruínas, das ruas citadinas, do fado, da gastronomia. Cultura é a interacção pessoas-pessoas, pessoas-espaços, pessoas-objectos. Cultura são as ideias, a criatividade. A cultura é vida, não está fechada.

Hoje, as tecnologias permitem-nos viajar pelos museus e ver os objectos, ler a sua história, a interpretação, o contexto histórico e social. O objecto multiplicou-se, tornou-se acessível. Só uma cultura do objecto, que idolatra o objecto e o valoriza no mercado das "coisas", é que a posse do objecto em si se torna prioritária.

Prioritário? Dou um exemplo de um outro episódio que aconteceu no sábado: o jovem que, depois de um acidente de viação, foi transportado de ambulância 400 KM, e só na parte final de helicóptero, para ter acesso a um neurocirurgião.

 

 

 

Nota 1 (no dia seguinte): Este é o post que finaliza mais um episódio da série Vozes_Dissonantes, isto é, vou ter de fazer mais um intervalo. É que observar e analisar o que se passa actualmente no país, sobretudo na sua dimensão cultural, provoca-me alergias. Digamos que não faz bem à saúde. E porque escolho escrever-vos em Notas soltas, em vez de abrir outro post? Porque quero que o título deste post fique a piscar em sinal de alarme: idolatram-se objectos, ignoram-se pessoas. Esta é a cultura dominante, a cultura do objecto, a impregnar e a contaminar as interacções sociais.

 

Nota 2 (2 dias depois): Hoje é essencialmente para deixar aqui alguns links sobre a Europa, a cultura dos partidos políticos actuais, os mecanismos democráticos que ainda existem mas que não se têm revelado eficazes, essencialmente uma nota virada para a acção e para o futuro.

Não estamos condenados ao país pós-troika que nos estão a preparar. Não estamos condenados à Europa que nos estão a preparar.

Para sairmos deste ciclo vicioso em que os sucessivos governos, bons alunos de Bruxelas, nos colocaram, desta cultura corporativa que nos condiciona a financiar grupos que prosperam, apropriação dos recursos estratégicos, negócios, fuga ao fisco e fraude fiscal, fundações, deputados a mais, assessores a mais, tudo o que já sabemos de cor e salteado, temos de ser muito mais criativos e participativos, em comunidades criativas reais e virtuais.

Desejo a todos os Viajantes que por aqui passam boa sorte (circunstâncias favoráveis) e muita inspiração (criatividade).

 

Nota 3: retirei o parágrafo da Nota 1 em que me refiro à reposição dos cortes nas reforma dos ex-funcinários do Banco de Portugal. No meio de tantas excepções, esta regra do BdP depender directamente do BCE etc. e tal não me deveria sequer perturbar.

Também resolvi arrumar a casa, retirar os posts com já não me identifico e/ou que fogem ao tema central do Vozes_Dissonantes, uma reflexão sobre a política caseira e a cultura dominante no país.

E para terminar mais este episódio desta saga portucalense, pensei num filme:

 

 

 

 Este filme que revela a importância da colaboração na organização da vida, de uma família, de uma comunidade, de um lugar, e iguamente a importância do papel estruturante das mulheres nessa organização, reflecte mais um futuro possível para o país do que a cultura actual do país.

Ainda temos um percurso enorme à nossa frente, o país ainda é essencialmente masculino, do poder do mais forte sobre o mais fraco, a lógica do pavão, do capataz e do conformista. 

O sorteio das facturas é a metáfora perfeita desta cultura dominante, e revela a continuidade não apenas de governos anteriores PS e o actual PSD-CDS, mas também de tempos que julgávamos ultrapassados. Mas eis que a cultura permanece incólume, e quem sabe ainda mais reforçada.

 

 

 

publicado às 22:17

O governo soma e segue atropelando todos os mecanismos democráticos, a certidão da nossa organização política, as regras do jogo, os representantes partidários e o representante arbitral digamos assim.

É o desequilíbrio político à Estado Novo, manda o Chefe do Conselho. Bem, na verdade, não é assim, manda a troika, a CE, o BCE, o FMI, a Alemanha, a alta finança. O governo é apenas um gabinete da troika.

 

Aliás, o governo-troika PSD/CDS conseguiu, pelos vistos, ir além do exigido, ir além da troika, o que revela o seu profundo envolvimento e empenho. As pessoas já perceberam isso. O governo-troika continuará a seguir este caminho de buldozer sem controle apesar das avaliações do tribunal constitucional, dos debates histéricos no parlamento e perante a passividade e serenidade do Presidente.

O PSD e o CDS sabem que não têm qualquer hipótese de ganhar as próximas legislativas. Qual é o povo que se quer suicidar?

O PSD e o CDS sabem que país teremos em 2015. Sabem porque o planearam e programaram. É o país da "nova normalidade".

 

Ontem dei comigo a ver o Política Mesmo, a parte de Manuela Ferreira Leite, e depois a Prova dos 9 na TVI.

Não consegui, por motivos de saúde mental, ouvir a entrevista da ministra das Finanças, a repetição do discurso tecnocrático de Gaspar faz mal à saúde pública, mas pelo que ouvi a Fernando Rosas e a Francisco Assis, a "nova normalidade" permitiu-me confirmar a marca registada deste governo-troika.

 

"Nova normalidade", pois. Para quem? Para a grande maioria dos portugueses.

Como Francisco Assis referiu: pobrezinhos e alegres. Tal como no salazarismo.

Fernando Rosas lembrou a história depois de 29, da grande depressão.

Paulo Rangel, esse, pareceu-me bastante constrangido e em conflito interno. Afinal é culto, sabe história e política, e é especialista na constituição. Como conseguirá ele, o da moção "Libertar o Futuro", conviver com a "nova normalidade"? De um lado, tem a missão impossível de acordar as consciências tecnocratas e do outro, um lugar na Europa ou em instâncias internacionais. Afinal, estes lugares são apenas trampolins para lugares melhores.

 

E é isso que veremos também acontecer aos rostos da austeridade Durão Barroso, Passos Coelho e Paulo Portas: um lugarzinho na estratosfera político-financeira europeia e mundial. Há sempre um império financeiro, uma fundação, uma organização, uma multinacional à espera. Tal como Constâncio foi catapultado ao BCE depois da ausência de supervisão bancária, ou Gaspar voltou à alta finança depois dos cortes a torto e a direito e sempre nos mesmos, também os principais rostos da austeridade terão um lugarzinho à sua espera. Afinal, não foram poucos os serviços prestados, para que alguns poucos tenham o lugarzinho no céu é preciso deixar o país no inferno... (Faz-nos falta um Gil Vicente para retratar tudo isto...)

 

 

Já agora, esse país que nos desenharam sem nos pedir a opinião, ja tem uma marcha popular ou mesmo um fado? Não será mais ou menos assim?

 

 

 

Cá vamos cantando e rindo

alegres na nossa pobreza

O destino nacional

é a delicadeza

com certeza

 

 

Somos o país da sardinha assada

da arrufada

do azeite

e do vinho tinto

A nossa marca é a gastronomia

e a bonomia

 

Temos o clima adequado

ao mercado

e o perfil profissional

um vosso criado

 

Admiramos e veneramos

os ricos e famosos

os poderosos

e vivemos para agradar

aos nossos investidores

e benfeitores

 

Cá vamos cantando e rindo

na nossa alegre pobreza

com certeza

 

 

 

Como vêem, isto ainda é apenas um esboço, é preciso melhorá-lo, musicá-lo, depois até se pode encomendar uns figurantes para fazer um vídeo, tal como aquele que o Professor Marcelo fez para os alemães mas com esta "nova normalidade".

Embora não me agrade muito a perspectiva de país conformado e mediano do Professor Marcelo, a sua visão de país sempre era melhor do que esta "nova normalidade". A propósito, que ninguém fique preocupado com o destino do Professor Marcelo, porque todos percebemos que ele tem popularidade para ganhar umas presidenciais, foi por isso que lhe pisaram os calos. Ao acusar o toque ganhou alguns pontos na corrida. 

 

 

 

publicado às 12:45

Avaliações de desempenho

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 27.07.13

A cultura de base dominante no país, e refiro-me à grande maioria dos seus habitantes independentemente do seu papel, funções, responsabilidades, é avessa a qualquer avaliação de desempenho. Aqui não me refiro às avaliações de desempenho que vemos praticar na administração pública, por exemplo, aqui refiro-me a uma avaliação objectiva e imparcial.

E no entanto, nunca como hoje precisámos de reavivar esta cultura, a começar nas funções de maior responsabilidade até às restantes, porque mesmo o papel mais simples em termos de escala pode fazer muita diferença no grande plano.

 

Uma avaliação de desempenho é essencialmente a qualidade da tarefa e/ou do produto, medida em eficácia, isto é, apresentação de resultados. Num mundo competitivo, a diferença pode estar nos custos de produção, correcto, mas também na capacidade de inovação.

É aqui que entram os recursos humanos. Uma economia baseada em competitividade apenas pelos baixos salários, não responde à segunda exigência: capacidade de inovação. E hoje essa é uma variável fundamental.

Recursos humanos é a chave. 

 

Quando viajamos no tempo conseguimos imaginar os nossos antepassados a avaliar a qualidade de um trabalho e/ou de um produto final. E se estivermos bem atentos aos sinais e aos pormenores, conseguimos perceber como também nesses tempos a inovação era fundamental. Mesmo em papéis e funções muito simples, aparentemente muito simples, conseguimos quase visualizar alguém a sugerir a modificação de um canal de água, da exposição solar, da protecção dos ventos, de uma roldana, de uma liga metálica, e como isso fará toda a diferença.

Se estivermos mesmo atentos a esses vestígios, cidades sobre cidades, as soluções de cada época, ficamos verdadeiramente fascinados com o engenho humano.

 

Hoje precisamos desse engenho, dessa capacidade de inovação, e da avaliação de desempenho objectiva e imparcial, mas sobretudo actual, flexível e abrangente.

Actual = que corresponde aos desafios actuais de qualidade, medidos em eficácia-rapidez-inovação;

Flexível = aberta à capacidade de aprender e melhorar, o tempo certo para cada etapa;

Abrangente = que saiba medir várias dimensões.

 

Recentemente, vimos a insistência ao nível da obsessão com a avaliação de desempenho dos professores, que levou à maior arbitrariedade doentia: a divisão artificial entre funções, a pedagógica e a administrativa, para se valorizar a administrativa. Este foi, a meu ver, o grande desvio e deformação na avaliação desta actividade profissional. Mas também revelou esta incapacidade cultural de avaliar objectiva e imparcialmente o desempenho dos profissionais.

Uma das etapas dessa avaliação incluía a auto-avaliação apresentada em relatório. A auto-avaliação é, a meu ver, uma das peças-chave do processo, mas no contexto em que foram elaborados já podem imaginar como a maioria terá procurado ajustar-se às exigências arbitrárias e deformadas que conseguiram destacar dos objectivos.

 

Auto-avaliação = fundamental para o próprio se situar relativamente a um plano prévio de tarefas e responsabilidades, mas também às suas expectativas, às da equipa e às do cliente. É por isso que sempre considerei fundamental a elaboração de relatórios periódicos de actividade. Sempre os considerei como um processo natural e sempre fiquei surpreendida com a aversão generalizada a essa prática.

Pois bem, se todos os profissionais apresentassem relatórios de actividade periódicos, a qualidade do seu trabalho sofria uma melhoria significativa, em termos de orientação, organização e responsabilidade.

 

Recursos humanos é a chave hoje. A economia vive diariamente dessa variável. 

 

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Estamos numa fase dificílima, os desafios são enormes, precisamos de toda a inteligência e capacidade de inovação dos nossos recursos humanos, o tempo é curto, as oportunidades escassas, uma janelinha apenas. 

 

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A valorização do trabalho, condição essencial da economia hoje, baseada nos recursos humanos, na eficácia, rapidez e inovação, passa por identificar estes obstáculos culturais que vêm de tempos antigos, identificá-los sem receio, para os neutralizar. São um obstáculo cultural aos desafios actuais da economia e da confiança, a condição básica.

Mas também são um obstáculo cultural à interacção saudável das comunidades, a vida social.

  

 

 

Exemplo dramático de ausênca de avaliação de desempenho: o desastre do rápido na Galiza. Tudo aponta para essa falha fatal com resultados inconcebíveis: o traçado de uma via incompatível com a utilização de alta velocidade, e o perfil psicológico do maquinista incompatível com as funções e a responsabilidade da actividade. Eis como uma tragédia poderia ter sido evitada. É melhor prevenir do que remediar, e aqui não há remedeio possível.

 

 

 

publicado às 09:29

As motivações dos que defendem eleições já

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 13.07.13

Seria interessante avançar com uma sondagem para sondar se a maioria dos cidadãos quer eleições já. A minha intuição diz-me que devem andar pelos 30% no máximo.

 

As eleições só iriam baralhar e dar de novo, porque o baralho é o mesmo. O baralho foi baralhado por nós há 2 anos e entretanto, que eu saiba, ainda não se renovou. O baralho continua a revelar cartas marcadas, outras repetidas, outras retiradas, e querem baralhá-lo de novo sem o renovar?

Mas se este baralho não se renovar, então ficaremos sujeitos a cartas muito mais duvidosas, porque não seremos nós, mal ou bem, a baralhá-las. Serão outros a fazê-lo por nós.

Assim sendo, temos de ajudar os políticos, esse baralho que é o que temos, a renovar a sua cultura de base e as regras do jogo, e a definir as prioridades para o país, a interagir entre si, a encontrar plataformas conjuntas e a assinar compromissos. Penso que é isto essencialmente que a sociedade civil espera dos políticos e dos partidos.

 

Eleições já apenas distraem as atenções do essencial: o baralho está viciado, trata-se de um verdadeiro impasse, os mesmos que nos trouxeram até aqui vão trocar de posições mas a cultura de base não muda, as regras do jogo são as deles e nisso eles entendem-se bem.

Eleições já servem de alívio momentâneo para o próprio sistema político e a sua fraca representatividade, e para os interesses que defendem, as excepções aos cortes, os privilégios, as mordomias. Digamos que os políticos e os partidos, sendo os intermediários entre o Estado, essa entidade cuja verdadeira dimensão ainda é desconhecida por nós, e os interesses dos grandes grupos económicos e financeiros, funcionam como almofada, não apenas cedendo às suas pressões, o seu poder, mas também aguentando as sacudidelas dos cidadãos.

De tal modo os políticos já se sentem sacudidos, na rua e na AR, que a Presidente da AR esqueceu todos os filósofos que leu e os calhamaços que engoliu e perdeu a cabeça exigindo respeito, como se já sentisse a guilhotina no pescoço: carrasco não era aquele que desferia o golpe fatal?

 

Podem dizer os que defendem eleições já que a representatividade e legitimidade do governo se resolve com eleições antecipadas. E assim o problema fica resolvido. Antes pelo contrário.

A representatividade e legitimidade resolve-se com uma mudança cultural profunda, assumir a responsabilidade mesmo que isso implique alguns custos imediatos em termos de mordomias e privilégios, e exija coragem para não ceder a pressões.

A representatividade e legitimidade resolve-se com uma mudança da lei eleitoral, de forma a aproximar eleitos-eleitores.

A representatividade e legitimidade resolve-se com a transparência, com prestar contas, apresentar relatórios, toda a informação relevante disponível a consulta pelos cidadãos.

E já agora, para merecerem a confiança dos eleitores, não poderão continuar a rasgar acordos e compromissos com os cidadãos e a aceitar as exigências e pressões dos credores, ou dos que exercem pressões.

Até isso se verificar, fica tudo na mesma.

 

As motivações dos que defendem eleições já variam conforme a sua posição na pirâmide aguda e esdrúxula em que nos organizaram, mas têm ganhos directos ou indirectos. Sem querer ser injusta, defendem a sua posição e não o colectivo, os cidadãos, as pessoas concretas. Por isso os seus argumentos fraquejam e repetem-se numa quase histeria dramática. Quando os argumentos são fortes, não precisam de carga emocional na sua apresentação, valem por si.

O único comentador que vi defender eleições já com argumentos inteligentes foi Pedro Lains, que já aqui referi, mas ainda assim discordei, por ser demasiado arriscado. Esticar demasiado a corda pode acabar por partir a corda. Mesmo que a corda venha a partir daqui a uns tempos, que seja numa altura em que não faça cair tanta gente e tão fragilizada.

 

Pelo que boas notícias seriam o melhor que poderia começar a acontecer aos cidadãos. Não me refiro à publicidade enganadora dos números do desemprego a diminuir (estamos no Verão, Santo Deus!, é o trabaho sazonal!) ou o ligeiro aumento das exportações. Refiro-me a boas notícias do género: os 3 partidos reuniram e a seguir vão reunir a 6, os 6 vão ainda reunir com os representantes patronais e sindicais, e vão envolver a sociedade civil nas suas diversas plataformas e especificidades, num trabalho conjunto e articulado. Parece filme de ficção científica, não parece? Mas essa é a cultura do séc. XXI.

A agenda de trabalhos:

1. Estado - a sua dimensão;

2. Estado - as suas funções prioritárias;

3. Estado - o que reduzir sem comprometer 2.;

4. Estado - como sustentá-lo a partir daqui?

5. A economia - como regenerar todo o tecido agrícola, industrial, de serviços?

6. Que modelo de país querem os cidadãos e o que estão dispostos a fazer para o merecer?

...

 

O poder político é muitas vezes visto como uma arma de destruição, aquele que pode afectar a vida de muitos outros, mas pode passar a ser encarado na perspectiva criadora. O poder de criar é muito mais difícil do que o de destruir, além de que é o único que nos enche a alma, por vezes até nem se vê de imediato porque acontece na maior simplicidade.

 

O que se passou na nossa vida colectiva, especialmente desde 2004 com a saída de Barroso, foi mau demais. Podem agora os que defendem eleições já tentar fazer comparações com a decisão de Sampaio de dissolver a AR, que não é argumento válido. Sampaio fez tudo de forma ambígua e perversa: primeiro, decidiu não convocar eleições antecipadas mesmo depois  de ter chamado a Belém os conselheiros de Estado; segundo, deixou Santana governar sem a tal legitimidade durante alguns meses para a seguir lhe tirar o tapete.

A situação actual é diversa, o PM é o mesmo e decidiu ficar, o segundo partido da coligação também se mantém, a troika quer ver se passamos o exame do bom aluno, o governo pode aproveitar o susto que a Europa apanhou para alterar o programa de forma a torná-lo viável, e se for acompanhado por um compromisso a 3, se não a 6, tanto mais forte e consistente será a sua posição.

 

 

 

 

publicado às 11:14

Vamos repor o filme naquela parte em que Portas tenta escapar do filme de terror A Reforma do Estado (e agora percebemos porque nos queriam mentalizar para a Re-fundação do Estado pois essa é a verdadeira intenção). Pois bem, Portas quando se viu no papel de protagonista (promovido a nº 2 do governo) do tal filme de terror A Reforma do Estado, logo depois da saída intempestiva do protagonista anterior (que também participara no guião e na produção), percebeu que nunca poderia executar aquele papel horrível e contrário à sua  própria natureza humana.

O CDS, partido de que se esperaria a compreensão das razões mesmo sem legendas (mas os únicos que parecem ter percebido foi Pires de Lima, o representante da Madeira e, até certo ponto, Nobre Guedes), ficou em polvorosa. Os corredores do poder, por onde finalmente se passeavam como em clube privado, estar-lhes-iam a fugir? Tudo bem, não era só isso, o país não lhes perdoaria terem abandonado o barco ... os mercados ... os credores ...

Em vez de protegerem o seu representante máximo, aquele que os mobilizou num momento e conseguiu a empatia com os cidadãos eleitores (eu incluída) e tentarem perceber as suas razões, responsabilizam-no pela crise política (!) e obrigam-no a negociar o inegociável. Como digo, com poucas excepções: Pires de Lima, o representante da Madeira e, até certo ponto, Nobre Guedes.

 

A razão apontada para sair, a nomeação de Maria Luís Albuquerque, não me parece a verdadeira razão. Quem melhor do que o braço direito ou esquerdo do anterior protagonista, guionista e produtor do filme, para continuar a cortar em tudo o que é sítio sem vestígios de hesitação?

 

 

É este o perfil psicológico adequado às funções de ministro das Finanças do governo-troika:

 

1) aptidões:

- inteligência burocrática e técnica;

- atenção concentrada em cada tarefa e em cada prazo;

- concentração da atenção nos números, excluindo as implicações sociais;

- capacidade de excluir todas as variáveis humanas da equação;

- ...

 

2) traços de personalidade:

- forte necessidade de afirmação=competição agressiva;

- forte necessidade de aprovação social=estatuto e carreira;

- motivação para exercer o poder=impacto sobre outros;

- fraca empatia humana e fraca reacção emocional;

- ... 

 

3) Experiência profissional:

- carreira burocrática e administrativa;

- conhecer os manuais tecnocratas;

- ser conhecida pelos tecnocratas de Bruxelas e do FMI.

 

 

Dizem que Portas terá preferido Paulo Macedo para o lugar. Todos teríamos preferido Paulo Macedo, mas isso implicaria que o filme fosse outro e não este, A Reforma do Estado (= cortes de 4 mil e 700 milhões).

Estão a ver Paulo Macedo a encaixar naquele perfil psicológico? Também não.

Paulo Macedo tem uma inteligência emocional, embora também se destaque igualmente na burocrática e administrativa. Digamos que é um perfil muito abrangente e completo. Mas nunca poderia ser o protagonista daquele filme.

 

E Portas? Estão a vê-lo a encaixar naquele perfil? Também não. Mas é o que o CDS (com algumas excepções) quer. Podem agora tentar culpá-lo da crise política e tudo o mais, mas a lista dos causadores desta crise política é muito longa e anterior à sua tentativa de escapar ao papel horrível deste filme. Muito mais responsáveis são o PM e o ministro Gaspar. E pensavam que o país iria aceitar a sua saída com alívio e engolir finalmente a sicuta como se fosse temporária porque até estamos a recuperar no desemprego... e mais perto de voltar aos mercados...

 

Já referi aqui os erros de Portas, mas estaria nas suas mãos poder evitá-los? Dar-lhe-iam a possibilidade de negociar coisa alguma na Europa? Poderia ter estado mais próximo da Economia e preocupado com os golpes fatais no mercado interno e no trabalho? Teria feito alguma diferença se os seus ministros fossem mais experientes?

Olhando para o rosto fechado de Passos, aquela voz monocórdica, aquele registo paternalista, nem consigo imaginar como será interagir com esse perfil nos antípodas de Portas. Mas eis que é a Portas que querem atribuir as culpas da dificuldade da interacção... 

Lembrando-me do rosto fechado de Gaspar, as sílabas marteladas na sua voz maquinal e electrónica, não consigo descortinar o funcionamento daqueles neurónios. É ainda um mistério. Dizem que é muito inteligente e competente. Resta saber: para quê? Só agora, na sua saída de cena antes do desastre, é que comecei a ver essa inteligência em acção.

Assistindo às mensagens cínicas de Barroso, ora são os estados-membros que decidem, ora é Bruxelas que decide, ora a austeridade já foi demasiada, ou é para continuar, prevê-se mais um ano de indefinições e de irracionalidade por aqueles lados.

 

Como desatar este nó? Como agradar à troika sem um suicídio colectivo?

Para desatar este nó é preciso criatividade à portuguesa, improviso à portuguesa, coragem à portuguesa, inspiração à portuguesa.

Sugestão: apresentar-lhes um governo com alguns estrangeirados nos lugares-chave para a troika (PM e Finanças) e portugueses de gema nos lugares-chave para o país (Economia e Recursos Humanos, Agricultura e Recursos Naturais, Educação, Saúde, Segurança Social). Claro que um governo assim é um desafio para a liderança, mas aqui entra a nossa genuína capacidade de improviso.

 

A imagem do governo também terá de ser trabalhada para o aproximar dos cidadãos: passear-se entre S. Bento e Belém ou entre ministérios e conselhos de ministros, em carros prateados topo de gama de marca alemã, não é recomendável. Seria interessante ver ministros a partilhar boleias (muito séc. XXI) e a utilizar carros montados em solo português; em vez daquela bandeirinha horrível na lapela publicitar produtos nacionais, fatiotas em tecido e fabrico nacional incluindo sapatos, chapéu, óculos e relógio, tudo de marca portuguesa, mesmo nas idas a Bruxelas; aprender a cantar a Grândola Vila Morena também é uma boa apresentação, Relvas percebia isso tudo mas tinham logo de implicar com a sua fraqueza tão portuguesa de querer ser doutor ou engenheiro; e outras sugestões a juntar a estas pelos Viajantes que aqui passam. 

 

Como TPC proponho a leitura da obra completa do Padre António Vieira. Era um verdadeiro herói de filme.

Se ainda tiverem tempo, Gil Vicente é sempre inspirador também. Mas o calor aperta e Gil Vicente fala muito em Inferno... talvez aguardar por dias mais frescos.

 

 

 

publicado às 10:05

Por tudo o que temos observado hoje nas notícias, já está identificada para os mais atentos a cultura de base do governo-troika: não há lei que não possamos ultrapassar e a Democracia pode ser desvirtuada na sua regra básica da igualdade e equidade.

Conseguidas estas duas primeiras amolgadelas na Democracia, já é mais fácil para o governo-troika impor a todos os cidadãos os tais cortes que já preparou para lhes aplicar, de forma a encaixar o país no Relatório do FMI.

Alguns cidadãos ainda não perceberam em que situação vulnerável ficará o país se estes gestores políticos e financeiros, de cultura elitista e antidemocrática, se mantiverem muito mais tempo no poder.

Talvez por saberem que em breve, mais propriamente em Outubro, os cidadãos vão perceber a dimensão do filme de terror que os espera, o governo-troika está a trabalhar contra-relógio, mobilizado na destruição dos serviços públicos e na venda a preços baixos dos recursos humanos, dos recursos estratégicos e dos recursos naturais, a grandes grupos económicos e financeiros em transacções preparadas em gabinetes.

 

De tal modo é importante para uma Democracia o acesso a serviços públicos de qualidade, em condições universais e igualitárias, que os vemos agora a ser defendidos em protestos por várias cidades do Brasil.

E de tal modo a Democracia já está no ADN dos europeus, que até a Grécia, com 6 anos de troika e de recessão, 27% de desemprego e na maior vulnerabilidade social, se mantém firme, uma maioria dos cidadãos e parte do governo, na defesa desse símbolo (o último suspiro?) da Democracia: a sua televisão pública.

A importância da Democracia e do exercício da cidadania são, assim, comuns a dois países de diferentes continentes e numa conjuntura económica tão diversa: o Brasil, em pujante crescimento económico, e a Grécia, com a economia de rastos e sob intervenção da troika.

 

A Democracia é a organização política e social mais equilibrada e favorável a uma economia saudável, ao permitir e promover o acesso à Saúde e à Educação de qualidade, de forma universal e igualitária. Por isso o país que for cedendo nestas duas áreas-chave, já comprometeu a sua Democracia, já perdeu a sua margem de manobra, e a seguir o limite é o exercício da cidadania, a sua voz colectiva.

 

Mas também na Turquia os cidadãos resolveram defender a Democracia agora em perigo, a perder terreno passo a passo, a ser desvirtuada pelo autoritarismo, e deram um exemplo cívico e simbólico ao resgatar o espaço público, aqui no seu duplo valor: como espaço colectivo e como símbolo da Democracia. Reparem na prepotência do primeiro-ministro turco em relação aos prazos que dá aos ocupantes do Parque Gezi: dá-lhes um prazo  para domingo quando já decidiu invadir o Parque, com investidas da polícia, na noite anterior, precisamente para os apanhar desprevenidos e vulneráveis. Aliás, outra das estratégias do poder, além de passar por cima da lei, da Democracia e dos cidadãos, e do efeito-surpresa sem respeitar prazos, é o de colocar os cidadãos na posição de agitadores sociais, neste caso, classificando-os como terroristas. Só com estas estratégias do poder já se conseguiram queimar etapas importantes da destruição da Democracia.

 

Por cá, a situação ainda não atingiu esse ponto do Guia do poder autocrático, mas para lá caminha:

- cidadãos no exercício de um direito constitucional, portanto dentro da lei e das regras democráticas, são considerados faltosos e grevistas (e isto dito de forma agressiva pelo ministro Crato que apenas segue o guia de instruções do Relatório do FMI);

- o ministro Maduro veio pronunciar-se sobre reuniões com sindicatos onde não esteve presente e terá amanhã tempo de antena para a propaganda do governo-troika e para debitar mais uma vez como o governo está aberto ao consenso e ao compromisso, e como os sindicatos foram irredutíveis (e tudo isto não tendo estado presente nas reuniões);

- os alunos foram colocados em situação desigual perante a situação de Exame, quebrando-se a regra básica da Democracia da igualdade e equidade;

- a instabilidade e a confusão instalaram-se nas escolas e à porta das escolas (tendo-se verificado algumas irregularidades) num dia de ansiedade para todos os elementos da Escola Pública: alunos, professores e pais;

- o ministro Crato aparece em conferência rápida de imprensa a anunciar que a igualdade da situação de Exame está garantida com a marcação da data de 2 de Julho para os alunos que não o puderam fazer hoje. À pergunta de um jornalista, sabendo o que sabe hoje não está arrependido de não ter aceite a data de dia 20 apontada pelo Colégio Arbitral?, responde categoricamente que não. (Primeiro, o poder nunca se responsabiliza por danos causados, e segundo, provavelmente caberá ao ministro Maduro da propaganda, vir amanhã, na entrevista televisiva, culpar os professores pela instabilidade e confusão, e algumas irregularidades, num dia de ansiedade para todos).

 

Enquanto as atenções dos cidadãos se concentram nas escolas, nos alunos, nos pais e nos professores, o governo-troika soma e segue: coloca aos serviços públicos o prazo de 31 de Julho para apresentarem a lista a abater nas estatísticas, os cortes limpos e rápidos determinados pelo Relatório do FMI. Uma limpeza.

Quando os cidadãos acordarem, e para já acordaram os reformados, os pensionistas e os funcionários públicos, estarão na situação dos gregos: só sentimos a falta de um serviço quando nos é retirado.

 

A Escola Pública será desmantelada até ser uma reserva para alunos que o ensino privado não quer, por lhe estragarem a posição nos rankings. O ensino privado é mais selectivo, sabiam?

 

Exceptuando um ou outro colégio de elite, o ensino privado é financiado no 2º e 3º ciclos pelo contribuinte. Está correcto? Não está.

Como vimos em recentes reportagens, há um grupo que gere colégios explorando os recursos humanos, os professores, em número de turmas e de alunos por turma, e em actividades-extra como pintar paredes do colégio. Auxiliares só um ou dois, multifuncionais, é só mudar a bata e o local. Competir com este negócio é possível? E isto financiado pelo Estado.

Menos gritante a situação dos colégios católicos, mas que ainda assim não deveriam ser financiados pelo Estado. Mas têm do seu lado a figura máxima da Igreja: D. Clemente apelou à compreensão para a situação dos estudantes e referiu-se aos colégios particulares que também têm dificuldades (?) Então e compreensão para a situação dos professores?, e das famílias?, e da prestação de serviços públicos?, e dos cidadãos em geral?

Não são realidades comparáveis. A Igreja falou, portanto, de forma tímida e só a pensar no ensino privado. 

As universidades ficaram em silêncio (?). A Educação não lhes diz respeito? A Escola Pública não lhes diz respeito? Parece que são um mundo à parte.

 

Quando acordarem, os cidadãos vão ver os serviços públicos degradar-se, perder qualidade, e alguns a passar a ser geridos pelos privados.

 

Na Educação, como prevejo, só serão aceites no ensino privado os alunos que não lhes estraguem a média, estão a ver o panorama?

Haverá de novo uma clara fronteira entre ensino de qualidade para uns poucos e ensino de fraca qualidade para uma maioria. Mas não apenas no próprio acesso a uma educação de qualidade, existirão graves desigualdades e desequilíbrios no acesso ao ensino superior. Essa expectativa ficará cada vez mais longe para uma maioria.

Também a actividade profissional de professor será cada vez menos atractiva, assim como a de funcionário público.

Mas os maiores danos far-se-ão sentir na Democracia, no equilíbrio social e na economia. No futuro, portanto.

 

 

Para terminar, só lembrar um outro prazo que o governo híbrido apressou para Setembro, o das eleições autárquicas, dia 29. Estou com curiosidade para ver até que ponto o povo sereno português aguentará a charanga do circo da propaganda eleitoral na rua e nas televisões, quando já estiver com a perspectiva de se ver em Outubro perante mais cortes na sua subsistência, no seu ânimo, no seu futuro. 

Que o mesmo é dizer: não há dinheiro para serviços públicos mas há dinheiro para manter o nº de câmaras municipais, não há dinheiro para juntas de freguesia, postos de CTT e postos de GNR, estruturantes a nível territorial, mas há dinheiro para manter o nº de câmaras municipais, não há dinheiro para a fiscalização da ASAE na segurança alimentar e na saúde pública, mas há dinheiro para manter o nº de câmaras municipais.

Que o mesmo é dizer: a fiscalização das finanças à evasão e fraude fiscal vai incidir sobre os mesmos sectores já massacrados como os cafés (!), os restaurantes (!!), os mecânicos de automóvies (!!!) e agora também os cabeleireiros (!?), ficando de fora a grande evasão fiscal dos profissionais liberais, das grandes empresas, da banca, etc. e da sua criatividade fiscal. Estamos a brincar com os cidadãos?

 

 

 

Anexo 1: finalmente ouvi a opinião de um professor universitário, João César das Neves, no programa Contas Certas da RTPN e pelo que ouvi em relação aos cortes no nº de professores, considerou que é só fazer as contas... com a redução de 25% de alunos no ensino básico e 2º e 3º ciclos. João Ferreira do Amaral lembrou-lhe o secundário que passou a obrigatório, mas o professor universitário defendeu não concordar com essa obrigatoriedade, pois o secundário deveria apenas abranger os que querem ingressar na universidade (!?!) Se esta for a posição das universidades, estamos esclarecidos. João Ferreira do Amaral não partilhou desta posição e considerou positivo o aumento da escolaridade obrigatória para o 12º ano. Quanto ao ingresso ou não no ensino superior, há cursos profissionais equivalentes ao 12º ano.

 

 

Anexo 2: relativamente à dimensão mediática que atingiu o fecho da televisão pública grega, e ainda no programa Contas Certas, achei interessante a opinião de João Ferreira do Amaral que considera ter-se tratado de um teatro político: provavelmente o governo não cortou onde se tinha comprometdo a cortar e resolveu cortar no mais fácil, no que estava mais à mão. Lá como cá, cortes no mais fácil e sempre nos mesmos.

 

 

Anexo 3: procurando manter uma distância emocional saudável em relação a toda a confusão destes últimos dias, este pagamento do subsídio de férias em Novembro (excepto nas autarquias e nas ilhas), cada vez mais me soa como um amortecedor previsto para os funcionários que forem colocados na lista que os serviços receberam e que o governo desmente, pois isso implica que passarão a receber apenas parte do vencimento. Reparem: com as excepções das autarquias e das regiões autónomas, novamente criando-se situações de desigualdade.

 

...

 

 

Anexo 4: Continua a ser preocupante a falta de debate público sério sobre o futuro dos serviços públicos em risco, as falhas no acesso e qualidade da sua prestação (na Saúde estima-se que 25% de idosos não têm acesso a medicamentos, verifica-se um aumento da depressão, de tentativas de suicídio, de morte na meia idade). A Cáritas fala num aumento de 65% de procura de apoio de pessoas da classe média, e muitas delas licenciadas, que querem essencialmente um novo trabalho, e organizou um Congresso sobre a Pobreza no país, de que vai apresentar Relatório, com a presença do ministro Mota Soares e do Presidente. Mas já percebemos que estas questões, que são prioritárias para os cidadãos, vão continuar a rolar nas roldanas da política nacional e da Comunicação Social, debitadas diariamente em estatísticas até entrar no ouvido como uma fatalidade. Portanto, parece-me que um debate sério se deve alargar à sociedade civil, às associações, aos diversos grupos de voluntários, e a iniciativas cívicas que entretanto já começam a surgir. 

 

 

Anexo 5: sobre Economia como mote para o início da campanha eleitoral autárquica (vá lá vá lá, só se estão a antecipar 3 meses, o Erdogan iniciou a dele com quase 1 ano de avanço). O ministro Álvaro bem pode revelar-se culturalmente aberto à revolta dos jovens, e fazer a propaganda do Impulso Jovem e do investimento das PMEs pois os cidadãos já perceberam, pela falta de resultados práticos dos seus programas, que se trata de propaganda. Afinal, já cheira a campanha eleitoral autárquica. E bem pode o Instituto de Emprego debitar 14.000 ofertas de emprego não preenchidas (temos de analisar bem a qualidade das ofertas) para mais um banqueiro nos vir dizer que os portugueses preferem viver de subsídio de desemprego (esquecendo-se que a maioria já estará fora desse apoio). O Congresso do CDS também vai apresentar a Economia (?) como a sua prioridade no próximo Congresso. Mais campanha eleitoral apenas, desta vez no formato dos Ídolos em azul bébé e botox q.b.. Entretanto, na Assembleia da República um deputado do PSD apresenta solenemente um Relatório preliminar sobre as PPPs rodoviárias, que ainda vai ser discutido por mais uma Comissão de Inquérito Parlamentar para que os deputados coninuem a fingir que apresentam resultados que, novamente, e como os cidadãos já perceberam, não vão ter quaisquer consequências criminais. Mais campanha eleitoral, portanto. Se assim não fosse, já se teriam visto mais consequências do BPN, da fraude fiscal, da evasão fiscal, etc. E entretanto o representante do PS foi pedir apoio europeu a partir de 2020 na participação nos subsídios de desemprego de países que ultrapassem o nível de 11% (!?). Que panorama animador da economia europeia Seguro nos vem apresentar? Cabe na cabeça de alguém com responsabilidades de gestão aceitar no seu país níveis de desemprego superiores a 11%? Isso é aceitar à partida o falhanço do país e da Europa! Nem sequer se deveria verbalizar tal coisa!? Mais vale continuar a vender a fórmula do crescimento económico e das medidas amigas da Economia cá e na Europa. E já agora, ajudava saber qual a sua posição relativamente ao futuro dos serviços públicos essenciais, Educação, Saúde, Segurança Social. O que é que acha dos 25% de idosos que não têm acesso a medicamentos? E qual a sua posição clara quanto à destruição da Escola Pública? Marques Mendes sugeriu aos professores deslocar-se a Bruxelas e a Washington. Acha bem? Se pode viajar, porque não vai até lá discutir o Relatório do FMI com a mesma lata e descaramento com que Mexia veio ao Olhos nos Olhos demonstrar que a factura da EDP é a mais baixinha da Europa?

 

 

 

publicado às 17:29

O que é que nos esconderam? O que é que vai acontecer em Outubro?

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 14.06.13

A partir daqui os buracos no puzzle precisam de ser preenchidos com respostas às seguintes perguntas:

 

- Porque é que andam tão nervosos (à excepção dos que apenas transpiram ódio e desprezo pelas populações)?

- Porque é que revelaram tanta pressa na marcação das autárquicas para Setembro?

- O que é que nos esconderam?

- O que é que vai acontecer em Outubro?

 

Hipóteses:

 

a) as medidas para o crescimento foram apenas uma manobra de diversão (recordo aqui a importância dada ao assunto pelo ministro Gaspar quando encenou o número circense a culpa é da chuva e os anúncios do ministro Álvaro sabendo que estavam condenadas à partida);

b) o governo escondeu os compromissos assumidos com a troika e os cortes serão muito mais drásticos: olhemos para a Grécia onde a economia, os serviços públicos (incluindo a televisão pública) já foram destruídos e pensemos de novo na saúde, na escola pública (e quem sabe na RTP), agora que se estão a vender à pressa e de forma irregular as jóias da coroa e os recursos naturais e estratégicos;

c) os partidos que compõem o governo híbrido não querem ser muito penalizados nas autárquicas;

d) o governo quer sair de cena antes do último suspiro da economia e dos serviços públicos mas depois de nos vender (trabalho e recursos naturais e estratégicos) nos saldos, mas atribuindo a culpa à troika e ao Tribunal Constitucional;

e) as eleições na Alemanha podem mudar a conjuntura europeia, decidindo sair do euro ou exigindo apertar mais o garrote;

g) a implosão da UE;

h) ...

 

 

 

 

publicado às 12:39

Confirma-se que alguma coisa de muito errado está a acontecer na orientação e intervenção da troika no país, de braço dado com o governo híbrido. Mas não é apenas ao nível das instituições internacionais, é cá dentro também. Do nível macro ao micro a desorientação é total.

Alguns factos que se juntam para nos inquietar:

- o Presidente critica a CE e sugere que o FMI saia da troika, mas refere-se às condições de manutenção do governo como existindo coesão social no país;

- o FMI contradiz-se a toda a hora, um relatório assume erros de previsão (?) relativamente à Grécia, mas no papelinho que o governo assinou sem dizer nada ao país a orientação é no sentido de acelerar os cortes dos tais 4 mil milhões (!) apesar de serem de difícil implementação, criarem instabilidade política e social e poderem vir a colidir com as leis do país (!!) além de agravarem a recessão e nos afastarem do acesso aos mercados (!!!) O elemento do FMI na troika que nos visita reagiu com nervosismo e irritação a duas questões: a opinião do Presidente para que o FMI saia da troika e as semelhanças com a situação da Grécia (!?);

- a CE promete criar programas de apoio às pequenas e médias empresas (se ainda existirem algumas depois destes cortes todos), com a ajuda de investimento alemão;

- na venda das jóias da coroa o processo dos CTT surge-nos como mais do que irregular;

- o governo decidiu adiar o pagamento do subsídio de férias para Novembro (de repente não há dinheiro disponível);

- o governo apressa para Setembro a data das eleições autárquicas (para controlar os danos pois talvez não sobreviva a Outubro ou Novembro);

- o ministro da Educação resolve entrar em rota de colisão com os professores e com a Escola Pública, revelando um discurso e comportamento próprios do tempo do Estado Novo;

- um cidadão português é multado por desabafar numa rua de Elvas quando passa o Presidente: Vai mas é trabalhar... estou a ser roubado todos os dias, o que gerou um movimento solidário que quer dar uma ajuda no pagamento da dita: 1.300 euros, se bem percebi.

 

A quem pode recorrer a sociedade civil nestes tempos de grande confusão geral?

O Presidente vive num mundo paralelo em que há coesão social e não gosta de desabafos dos cidadãos;

A Assembleia da República também não gosta de desabafos e os cidadãos não têm lá um representante directo;

O Provedor de Justiça não deve ter mãos a medir;

O Procurador Geral da República não tem meios nem tem como prioridade fiscalizar o que o governo anda a fazer;

O Tribunal de Contas só dá pareceres e produz relatórios;

A Comunicação Social só reproduz as notícias que lhe dão já preparadas, não investiga, não analisa, não reflecte.

 

A sociedade civil tem de estar mais atenta e vigilante para se poder defender deste desvario total em que todos lhe escondem a realidade, a verdade, os factos, as prioridades do governo, a sua agenda, os verdadeiros compromissos com a troika, os negócios escondidos, as excepções, etc.

 

 

É muito triste ver as Notícias hoje em dia e ter de juntar as peças de um puzzle que é muito pior do que aquele que nos revelam. O puzzle ainda vai a meio, ainda tem buracos por preencher, mas já se vêem alguns padrões:

 

1) o governo sabe que não irá sobreviver ao desastre económico que se anuncia, às confirmações das piores previsões e de uma recessão muito mais profunda e prolongada, e quer evitar ficar penalizado nas autárquicas (impossível) e ainda quer mais, sair de cena com a imagem de patriota e de ter servido o país;

 

2 ) o governo colocou-nos a caminhar no sentido da Grécia, de braço dado com a troika, apesar de nos querer colar à Irlanda e de nos iludir com o acesso aos mercados e a saída da troika em 2014;

 

3) a agenda hoje é clara: desvalorização do valor do trabalho, economia ao serviço da finança e dos grandes grupos económicos, opacidade e desinformação em relação aos grandes negócios do Estado, desmantelar os serviços públicos, manter o conformismo dos cidadãos através do medo e da intimidação.

 

 

Fala-se na crise do regime e no envolvimento dos partidos políticos, da Assembleia da República e as incompatibilidades éticas e profissionais, dos interesses dos grupos de influência, etc., mas nada se faz.

Os cidadãos não confiam nos políticos em geral.

Entrámos no impasse da alternância, tal como o Rotativismo no séc. XIX.

 

Como é que a sociedade civil pode intervir de forma construtiva se não tem mecanismos a não ser protestos de rua (e os inorgânicos são os que têm mais impacto), as Petições, as greves (para os activos, porque os inactivos e os reformados nem esse recurso têm), e pouco mais.

Os cidadãos só têm visibilidade e importância para os políticos em campanha eleitoral. Só nesses momentos precisam do voto dos eleitores. Depois viram-lhes as costas e fazem o que sempre fizeram: tratar da sua vidinha. 

As eleições são talvez os únicos momentos em que os cidadãos têm algum poder relativo. Seria bom reflectir nisto.

 

 

Hoje é dia de Santo António. Desde criança que o associo a causas perdidas e a milagres, numa oração muito antiga, o Responso a Santo António, em que resgata a vida, a saúde, aos mancebos e aos velhos... Necessidades e perigos faz cessar entre os humanos, diga quem o experimentou mormente os paduanosSempre gostei desta figura que junta a cultura à simplicidade, a comunicação à inspiração divina.

A nossa salvação reside na nossa própria consciência e na consciência colectiva, na cultura da colaboração, no respeito por nós próprios e pelos outros, na dignidade e no valor intrínseco de cada indivíduo. É essa a mensagem que me fica dessa figura inspiradora de Santo António.

 

 

 

publicado às 21:08


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